sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ódio ao Surfista?




Em um portal designado a atender surfistas de todo Brasil, este título pode soar fora de contexto. Não está. Na verdade trata-se de um comunicado institucional, dirigido a todos nós, surfistas, simpatizantes, iniciantes e veteranos.

Mas gostaria de substituir a palavra “ódio”. Meu pai sempre disse que é um termo muito forte para ser usado sem certeza. Concordo e como ele tem mais moral, então substituiremos por “não suporto mais surfista”.

Há muito tempo digo isso em razão do meu desapontamento com a rapaziada. Estou perto dos 30 e surfo desde os 15 anos, quando herdei do meu brother uma “Flor da Ilha”. Muita gente vai se identificar com este início, principalmente quem é de Florianópolis (SC) e que conhece esta prancha. 

Meu nível de surf está para “amigo da raça”. Vez ou outra sai uma batida, uma rasgada legal, uma penteada e raramente um tubinho para ganhar o dia, honestamente falando, pois sei bem a diferença entre uma penteada e uma boa “tubaca”, o que muitos não sabem.

Não sou local de nenhuma praia. Aqui, como a maioria, sempre surfei de acordo com as condições, o que faz muito local sair do seu pico para procurar coisa melhor. Para mim está mais para ‘‘deslocalismo’’.

Mas enfim, o localismo existe e deve ser levado a sério. Pelo menos no Atalaia, Itajaí(SC), o único lugar que pude realmente constatar que haole não entra. Só lá! Ou alguém discorda? Em qualquer outro lugar forasteiros entram sim e ainda fazem a festa, ou são “arregados”.

Mas não é do localismo que quero falar e sim da atitude dos surfistas. Um dia destes um amigo que não é do surf me descreveu como invejava os surfistas: “Bixo, esta turma do surf dá um banho. Sempre na praia, tudo em forma, curtindo a natureza, relaxadão...”. 

Relaxadão? Curtindo a natureza? Tive que interrompê-lo para dizer que ele não fazia ideia do que estava falando. 

Expliquei que hoje em dia existe o localismo. Que em muitas praias surfistas não aceitam outros surfistas. Que o surfista, o garotão da praia, envolvido com a natureza, é no fundo um preconceituoso.

Expliquei que a indústria fabrica surfistas que nada entendem do esporte, que acham que basta tirar a calota do carro, encher de adesivo e amarelar o cabelo para entrar na água berrando, bicudo, sem respeito por nada.

Muitos dizem que não se trata de um esporte democrático. Estive no Rio alguns meses atrás e vi dezenas de moleques da favela andando de prancha na mão, amarradões, sem vícios de marcas ou modismos, apenas curtindo o que as ondas oferecem.


O que se percebe atualmente é que no surf não existe o menor sentimento de companheirismo. Dentro d’água, o sentimento é competitivo e nada amistoso, como se cada onda perdida, pega por outro, despertasse o pior sentimento nos espectadores ali presentes. 

Em uma pista de skate, crowdeada de profissionais e amadores, basta um qualquer executar bem uma manobra que soa o coro: “yeah!”. Aliás essa raça do skate sim dá um banho.

Tomar o exemplo desta galera não é difícil. Alguém já experimentou andar em uma pista cheia?  Trombadas, skate dos outros “espirrando” na sua canela (o que machuca demais), porém nenhuma briga, xingamento. 

E olha que nem o mar está ali para esfriar a cabeça. Acho que, inconscientemente, existe o respeito ao ser humano, ao desconhecido que está ali compartilhando a mesma experiência. Não vamos considerar como uma virtude o respeito, mas sim como algo essencial para a boa convivência, um acessório de fábrica.

Enfim, pode ser uma opinião bem pessoal. Uns podem se identificar e outros não. É capaz de ter gente me esperando com uma pedra na mão na minha próxima queda.

Queria ver a galera mais relaxada, menos tensão no mar, mais surf e menos desrespeito. 
Que os iniciantes busquem entender os fundamentos do surf antes de entrar em um mar crowdeado. Procurem saber o que é preferência, que rabear não é legal, que o mar merece respeito.

E veteranos, vocês já foram iniciantes, tentem ser mais compreensivos e, ao invés de dar um esporro, ensinem, compartilhem experiências, auxiliem. Não é utopia. Pratiquem isso pelo menos uma vez e garanto que as próximas serão mais fáceis.

Costumo dizer que o surf se tornou um esporte ingrato, que estava me trazendo mais desilusões que alegrias. Até que um dia desses levei meu brother, portador da síndrome de down para surfar comigo.

E nele, deitado na prancha pegando uma espumera, eu vi a pureza do surf novamente.

Paz no surf galera!

2 comentários:

  1. Po bixo, concordo plenamente contigo, a rapaziada tá perdendo o senso, muito extress... Mas eu também entendo um pouco isso, tenho 35 anos e comecei a surfar com 11 (e minha segunda pranchinha foi uma flor da ilha feita pelo Ilton e pelo Zacheu ali na fábrica do pantanal, onde eu morava), nessa época meu avô já tinha a casa dele na descida do morro da mole, um tio tinha casa nos açores, depois meu velho comprou casa no matadeiro, na guarda... Cara, surfar nessa época era realmente inacreditavelmente bom, e talvez isso faça alguns terem mais dificuldade de aceitar que os tempos mudaram e o surf gannhou um número expressivo de admiradores e praticantes... Porém, eu partilho exatamente do mesmo sentimento que você, quero de volta aquele sentimento de aventura entre amigos (mesmo com o crowd de hj), que tinham que encarar muitos perrengues pra poder surfar, pricipalmente o preconceito ainda forte da sociedade, a cara torta dos pais, etc, etc. E eu sinceramente acho que essa rapaziada mais antiga é mais da paz, partilha desse sentimento de alegria dentro d'água também, igual ao pessoal do skate que são exatamente como vc citou, muito mais unidos e amigos. Isso sempre foi um pouco menor no surf, mas hoje em dia tá inexistente... Parece que tá todo mundo correndo final de campeonato.

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  2. Fala ai brother... para finalizar meu post, você escreveu tudo o que faltava, valeu pelo comentário.
    Paz

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